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019. História e historiografia dos saberes psicológicos no Brasil
 

019. História e historiografia dos saberes psicológicos no Brasil

Coordenadores: ANA MARIA JACÓ-VILELA (Pós Doutor(a) - Professora Adjunta da UERJ), CRISTIANA FACCHINETTI (Pós Doutor(a) - Pesquisador)
Resumo: O objeto deste simpósio se produz na complexa rede de circulação e apropriação das teorias psicológicas européias no Brasil. Nosso objetivo principal é o de congregar pesquisadores, professores e estudantes em torno de diferentes análises acerca da constituição e desenvolvimento dos saberes e práticas psis no país com vistas a renovar os debates acerca da produção historiográfica dos saberes psi em torno de questões especificas da sociedade brasileira. Outro ponto dessa discussão que nos interessa especialmente é o lugar da ciência e da tecnologia específicas do campo psi na história e na cultura do país.
Neste recorte importa-nos pouco discutir a verdade ou retidão de determinadas leituras, interpretações e usos frente às propostas teóricas européias. Antes, trata-se de perceber quais propostas teóricas foram selecionadas, como foram utilizadas, por que determinado recorte foi feito, quem foram os leitores e, finalmente, quais eram as preocupações e motivações desses atores em um dado contexto e período específico que os levaram a tomar determinadas teorias e práticas dentro de um amplo repertório de referenciais possíveis.
Para tanto, a proposta visa reunir histórias dos diferentes saberes psi (psicologia, psiquiatria, psicanálise, higiene mental, eugenia, saúde mental, entre outros), em torno de teorias, atores e instituições no contexto brasileiro, buscando captar as especificidades de diferentes períodos históricos. Pensa-se que a abordagem multidisciplinar seja capaz de dar conta de diferentes recortes do objeto, assim como abrigar diferentes posições teórico-metodológicas em torno dele, enriquecendo este debate.
É justamente essa problematização que anima este simpósio, que o considera como uma oportunidade de promover uma reflexão acerca desse importante campo da historia das ciências no Brasil, bem como de seus objetos, perspectivas e fontes.
Justificativa: A historiografia acerca dos saberes psicológicos no Brasil teve, com certa freqüência, uma perspectiva referida à história intelectual em moldes tradicionais, sem que se considerasse o contexto social ou a história dos seus autores e atores. Este viés de leitura pressupunha frequentemente que o historiador seria capaz de interpretar com precisão e objetividade as propostas teóricas escolhidas, sem que fosse preciso considerar o contexto social ou a história de seus autores. Nesta mesma linha, tiveram autores que buscaram identificar escolas ou determinada tradição científica intelectual construída em torno de certas correntes de pensamento. Em algumas dessas histórias, os diferentes grupos eram comparativamente articulados; discutiam-se, então, seus pontos de concordância, sobreposição e desacordo, estabelecendo-se entre eles certa intertextualidade.
Outros estudos buscaram as cercanias das ciências sociais, mais do que a teoria da história propriamente dita. Com estes, o foco de descrição factual e evolutiva da história dos saberes psis no Brasil ou de um determinado autor (genial, avant la letre) descolado da realidade ao seu redor foi deixado de lado em prol da consideração acerca da existência de um contexto que se sobrepunha ao pensamento e determinava, às vezes de modo irredutível, os modos de um teórico compreender a realidade. Assim, desde a segunda metade da década de 1970, muitas vezes com apoio da sociologia do conhecimento, da filosofia marxista ou da proposta foucaultiana, o foco deslocou-se para a problematização das condições de produção do discurso psicológico, em torno das categorias de luta de classes e interesses de grupos e da análise das relações entre esse discurso tornado verdadeiro, os dispositivos disciplinares e tecnologias de poder ali envolvidos.
Sem negar a importância desses estudos históricos, bem como sua enorme utilidade para o conhecimento acerca da formação dos saberes psicológicos, é preciso ressaltar em ambas as vertentes a falta de problematização sistemáttica acerca da historicidade e das particularidades desses saberes no Brasil. Especialmente em países pós-coloniais como o nosso, torna-se fundamental uma reflexão mais aprofundada sobre os problemas específicos a serem enfrentados pela história desses saberes. Afinal, a aproximação com a Europa, estabelecida ao longo de um processo de dominação, torna particularmente complexa a tarefa de se interpretar o surgimento e desenvolvimento da vida científica nesses países.
Em anos recentes, já se percebe a incorporação de novas abordagens na análise histórica do saber psicológico, como aquelas que advêm da abordagem sócio-cultural da história das ciências, da filosofia de Derrida e da crítica literária. Ainda assim, podemos afirmar que tais incorporações têm sido feitas de maneira um tanto fragmentada e assistemática, sendo preciso reconhecer que ainda falta problematizarmos a particularidade dos saberes e práticas psi no Brasil.
Assim, ao tratar da recepção e da apropriação de idéias na formação desse campo, seria necessário considerarmos a complexa dinâmica de circulação das teorias em um mundo marcado por um contexto social de valores, discursos e práticas particulares, com resultados nunca idênticos às propostas inicialmente apreendidas.
Deste modo, pensamos que o simpósio permitirá ampliar a reflexão acerca da produção historiográfica desse importante campo da história das ciências no Brasil. E talvez ainda mais importante, permitirá construir um espaço de troca e de debates acerca dos novos caminhos dessa produção, com a renovação de objetos, perspectivas e fontes.